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segunda-feira, 19 de março de 2012

A INDIFERENçA: QUE BELEZA....

 O mundo ocidental em que vivemos hoje possui muitas falhas graves e perigos, mas comparado ao mundo de ontem tem uma enorme vantagem: todos podem saber tudo sobre tudo. A informação é hoje o "quarto poder" pelo menos em teoria, o cronista e o jornalista têm acesso livre em todos os lugares, ninguém os pode parar , distanciar ou silenciar. E tudo mais fácil: se você quiser, escuta o rádio do seu país ou de qualquer outro país; escolhe o jornal que você quer, italiano de qualquer tendência, ou americano ou soviético, dentro de uma ampla gama de alternativas; compra e le os livros que você quer, sem medo de ser acusado de "atividades subversiva" ou de procurar-se a casa uma busca da polícia política. Claro que não é fácil escapar de todos os condicionamentos, mas você pode pelo menos escolher o condicionamento que preferir. [...]

Na Alemanha de Hitler era difuso um costume particular: quem sabia não falava,, quem não sabia não fazia perguntas, a quem fazia perguntas não se respondia. Desta forma, o cidadão típico alemão conquistava e defendia a sua ignorância, que lhe parecia uma justificativa suficiente de sua adesão ao nazismo: fechando a boca, os olhos e os ouvidos, ele se construia a ilusão de não estar ciente, e então de não ser cúmplice, do que acontecia fora de sua porta.



PRIMO LEVI
Appendice (1976) a Se questo è un uomo, in Opere, Einaudi, Torino 1998

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

RELIGIAO: OPIO DOS POVOS

O fundamento da crítica irreligiosa é: o homem faz a religião, e não a religião o homem. De fato, a religião é a consciência de si mesmo e o sentimento de si do homem que ainda não conquistou ou já perdeu novamente a si mesmo. Mas o homem não é um ser abstrato, colocado fora do mundo. O homem é um homem do mundo, do Estado, da sociedade. Este Estado, esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido.



A religião é a teoria geral deste mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica em forma popular, o seu ponto de honra espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção moral, a sua conclusão solene, a sua base universal de consolação e de justificação. É a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não possui uma realidade verdadeira . A luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo, do qual a religião é o aroma espiritual.



A miséria religiosa é tanto uma expressão da miséria real e um protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração, assim como é o espírito de uma condição sem espírito. É o ópio do povo.



Eliminar a religião enquanto ilusória felicidade do povo quer dizer exiger a sua verdadeira felicidade. A necessidade de abandonar as ilusões sobre sua condição é a necessidade de abandonar uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, portanto, a crítica do vale de lágrimas, da qual a religião é a auréola.



A crítica arrancou da corrente as flores imaginárias , não para que o homem carregue uma corrente nua e desconfortavel, mas para que ele possa se livrar da corrente e colher as flores vivas.

A crítica da religião desengana o homem para que ele pense, opere, constitua a sua realidade como um homem desiludido e que alcançou a razao, de modo que ele se mova em torno de si mesmo e, portanto, em torno de seu verdadeiro sol.

A religião é apenas o sol ilusório que gira em torno do homem até que ele não se move em torno de si mesmo.

Portanto, é tarefa da história, uma vez desaparecido o além da verdade, restabelecer a verdade daqui . É principalmente tarefa da filosofia, que está a serviço da história, uma vez desmacarada a sagrada figura da auto-alienação humana, desmascarar a auto-alienação em suas figuras terrenas. A crítica do céu transforma-se assim em crítica da terra; a crítica da religião na crítica do direito; a crítica da teologia na crítica da política

(Karl Marx - Per la critica della filosofia del diritto di hegeliana - 1844)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A ETERNA MENOR IDADE DOS HOMENS

TRATO DA: http://bfp.sp.unipi.it/dida/kant_7/ar01s04.html#ftn.id2794969

Immanuel Kant

Iluminismo é a saída do ser humano do estado de imaturidade do qual ele mesmo é culpado. Imaturidade é a incapacidade de usar o proprio entendimento sem a orientação de outro. Culpada é essa imaturidade, se a sua causa não depende de um defeito de entendimento, mas por falta de determinação e coragem para usá-lo sem a orientação de outro. Tenha a coragem de usar seu próprio entendimento! Então este é o lema do Iluminismo.

A preguiça e a covardia são as razões pelas quais grande parte dos seres humanos, depois que a natureza da muito tempo os libertou da guia altrui , no entanto, permanecem de bom grado de menor idade a vida, e por isso tão facilmente outros conseguem estabelecerem-se como seus tutores. É muito conveniente ser menor de idade! Se eu tiver um livro que tem intelecto por mim, um diretor espiritual que tem uma consciência por mim, um médico que avalia a dieta por mim, etc., Eu certamente não preciso esforçar-me sozinho. Eu não preciso pensar, desde que possa pagar: outros prontamente assumirao esta tarefa tediosa em meu lugar. A garantir que a grande maioria dos seres humanos considere a mudança para a maior idade, além de difícil, também muito perigoso, se preocupam jà os tutores que tão gentilmente assumiram a alta vigilância sobre eles. Depois de ter-lhes inicialmente estupidecidos, como se fossem animais de estimação, e de ter cuidadosamente evitado que essas plácidas criaturas ousassem dar um passo sem o andador pra crianças no qual lhes engaiolaram e em que foram confinados, mais tarde descrevem-lhes o perigo que os ameaça se tentassem andar sozinhas. Ora, este perigo não é tão grande, porque, com poucas quedas, eles eventualmente aprenderiam a andar: mas um exemplo deste tipo, no entanto, os rende timorosos e, normalmente, os alontana de qualquer ulterior tentativa.

Para cada ser humano individualmente tomado é, portanto, difícil de se livrar de uma menor idade que lhe virou quase natureza . Chegou até mesmo a amá-la, e de fato é realmente incapaz de usar seu próprio entendimento,, não lhe tendo nunca sido autorizado de colocar-lo a prova. Preceitos e fórmulas, estes instrumentos mecânicos de um uso racional, ou melhor de um abuso , de suas disposiçoes naturais, são a base de uma menor idade permanente. E mesmo aqueles que se livrassem desse jogo , faria, no entanto,só um salto inseguro mesmo sobre a vala mais estreita , nao sendo acostumado a mover-se tão livremente. Entao, somente poucos são capazes, trabalhando em seu próprio espírito, de livrar-se da menor idade caminhando , ao mesmo tempo, com passo seguro.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Soldados americanos mijam em corpos mortos no Afeganistao

Nao precisa descriçao.
Essa é a America.
Esses sao "marines"!
Essa é a moral e a liberdade que os Estados Unidos porta ao mundo....

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

RAINHA INGLATERRA TENTA ROUBAR DINHEIRO DOS POBRES INGLESES

("Rainha") Elizabeth 2ª quis usar fundo para pobres para pagar contas de palácio

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/806183-elizabeth-2-quis-usar-fundo-para-pobres-para-pagar-contas-de-palacio.shtml


NESSE MUNDO Sò DUAS COISAS NAO TEM LIMITE:

A IGNORANCIA DOS POVOS e A GANANCIA DOS MILHARDARIOS...
Multidao na frente do Palacio Buckingham Palace para ver casamento do principe!!!


Mesmo uma rainha precisa de uma ajudinha de tempos em tempos -- especialmente quando o custo para aquecer seu palácio passa de US$ 1,5 milhão por ano.
A rainha, no caso, foi Elizabeth 2ª, uma das mulheres mais ricas do mundo. Ela pediu ajuda a um fundo do governo que oferece subsídio para aquecer a casa de britânicos de baixa renda.



Matt Dunham/AP - 17.mai.05
Palácio de Buckingham, em Londres; custo para aquecer o local passa de US$ 1,5 milhão por ano
Palácio de Buckingham, em Londres; custo para aquecer o local passa de US$ 1,5 milhão por ano



O pedido de sua Majestade, feito em 2004, foi educadamente recusado pelo governo -- em parte, por causa do medo de publicidade negativa-- e varrido para debaixo do tapete, silenciosamente. Até que o jornal "Independent" teve acesso a documentos, por meio da lei de liberdade de informação, e divulgou o caso na última sexta-feira (24).


Os documentos citam um funcionário não identificado gentilmente lembrando a família real de que o programa de 60 milhões de libras é voltado a famílias carentes, não à aristocracia, e notando o potencial desastre público que poderia acontecer se o dinheiro fosse destinado ao palácio de Buckingham, em vez de a hospitais e associações de moradores carentes.
Autoridades do palácio, decepcionadas, confirmaram o caso na sexta-feira. A porta-voz do Palácio de Buckingham disse que as autoridades reais exploraram a possibilidade de obter dinheiro por meio do programa como forma de reduzir o custo da monarquia para os contribuintes, tornando o sistema de energia do palácio mais eficiente. Ela alegou que, na época, a família real não sabia que o dinheiro era voltado a britânicos de baixa renda. 



Assistentes reclamaram em 2004 que as contas de gás e eletricidade da rainha, que tinham aumentando em 50% naquele ano, haviam se tornado "insustentáveis".
A revelação do "Independent" gerou uma certa revolta no Reino Unido porque ocorreu em um momento em que o país enfrenta severos cortes nos gastos públicos em meio a uma prolongada recessão.
CRÍTICAS

Graham Smith, porta-voz do grupo antimonarquia Republic, disse que a tentativa da rainha de usar fundos destinados à baixa renda é vergonhosa. "É uma evidência clara do desprezo que o palácio tem pelas pessoas comuns nesse país", afirmou.
Alguns londrinos concordam.
O instrutor de academia Nick Bowring, 23, disse não acreditar que a rainha deva receber ajuda para pagar contas de aquecimento. "Há pessoas que precisam mais do que ela."
As finanças da rainha já geraram controvérsias no passado, com debates ocasionais sobre o motivo de a chefe de Estado britânica --cujo papel é principalmente cerimonial-- custar tanto aos contribuintes.
A monarca de 84 anos tem residências reais por todo o país, incluindo o castelo Balmoral, na Escócia, e a Sandringham House, no leste da Inglaterra. Outras residências, como o palácio de Holyroodhouse em Edimburgo (Escócia) e o palácio de St. James, em Londres, são usados como escritórios ou para outras funções.
Ela possui muitos outros bens, incluindo uma extensa coleção de arte e uma frota dos mais finos automóveis do mundo, apesar de o iate real ter sido vendido.
O palácio de Buckingham é propriedade real desde que o rei George 3º o comprou em 1761, e é a residência oficial dos monarcas britânicos desde 1837. Embora ele tenha jardins magníficos e grandes salas com pinturas e mobiliário de de valor inestimável, grande parte do palácio, que tem 775 cômodos, não foi modernizada e é fria e canaliza vento. Muitas das salas usadas pelos funcionários são extremamente escuras.
O isolamento é ruim e os sistemas de aquecimento precisam ser substituídos, assim como muitas das janelas, que não possuem bons vidros. Teste de imagem termal, usado para identificar e medir gasto de energia, mostrou o aquecimento escapando pelas janelas, o telhado e buracos nas paredes.
VERBAS

Contribuintes financiam a casa real com um total de 38,2 milhões de libras (R$ 103,5 milhões) por ano, valor que, segundo o site oficial da monarca, custa aos 62 milhões de britânicos menos de 1 libra.
A página na internet destaca que as despesas reais têm sido cortadas substancialmente nas últimas duas décadas, caindo de 87,3 milhões de libras no ano fiscal de 1991-1992 para os 38,2 milhões de libras neste ano. Esse total não inclui o custo de segurança para a rainha e sua família.
Elizabeth 2ª também recebe 7,9 milhões de libras todos os anos para os salários de seus funcionários e outras despesas, um valor que não subiu nos últimos 20 anos.
A contabilidade mostra que o governo gastou mais de 15 milhões de libras na manutenção de residências reais, incluindo o palácio de Buckingham e o castelo de Windsor, e quase 4 milhões de libras em viagens reais.
Enquanto alguns criticam a rainha por tentar conseguir ainda mais ajuda do governo, outros a defendem.
O carpinteiro Ian Laming, 49, disse que o governo deveria ter aceitado seu pedido. "Ela ajuda muito", disse, completando que a monarca é um grande benefício à economia do Reino Unido. "Você só precisa andar até o palácio de Buckingham para ver todos os turistas."

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

ESTADOS UNIDOS: DEPOIS DA INVASAO, O ROUBO AO POVO IRAQUIANO...

Iraque: instituições americanas desviaram US$ 17 bilhoes do país

Fonte:  http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5194765-EI308,00-Iraque+instituicoes+americanas+desviaram+US+bi+do+pais.html

O Parlamento do Iraque procura cerca de US$ 17 bilhões que o país diz terem sido roubados depois da invasão dos Estados Unidos ao país em 2003. O legislativo iraquiano pediu ajuda às Nações Unidas para achar os recursos e afirma que indícios apontam que os valores foram desviados por instituições americanas.
Em 2004, o governo do ex-presidente americano George W. Bush enviou bilhões de dólares ao Iraque. O dinheiro era da venda do petróleo iraquiano, recursos do programa petróleo por comida das Nações Unidas e de bens iraquianos confiscados.

O dinheiro desaparecido havia sido levado dos Estados Unidos para o Iraque para ajudar na reconstrução do país depois da queda de Saddam Hussein, mas acabou desaparecendo. Numa carta no mês passado ao escritório das Nações Unidas em Bagdá, o Comitê de Integridade do Parlamento pediu ajuda para achar e recuperar o dinheiro de petróleo tirado do Fundo de Desenvolvimento do Iraque em 2004 e perdido no caos pós-invasão.

"Todas as indicações são de que as instituições dos Estados Unidos da América cometeram corrupção fiscal roubando dinheiro do povo iraquiano, que fora alocado para desenvolver o Iraque, cerca de US$ 17 bilhões", diz a carta enviada às Nações Unidas, junto com um relatório de 50 páginas.

O comitê chama o desaparecimento do dinheiro de um "crime financeiro", mas diz que resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidos não permitem ao Iraque fazer alegações contra os Estados Unidos. "O nosso comitê decidiu levar esse tema até vocês para exame e para a recuperação do dinheiro roubado", declara a carta.

Representantes das Nações Unidas não estavam disponíveis para comentar o caso. O Fundo de Desenvolvimento do Iraque foi estabelecido em 2003, um pedido da autoridade provisória do país naquela época, entidade comandada pelos EUA. O fundo era para ser usado para pagar salários e pensões de funcionários do governo iraquiano, além de projetos de reconstrução.

Em julho passado, um relatório da inspetoria americana para a reconstrução do Iraque afirmou que o Departamento de Defesa dos EUA não foi capaz de prestar contas de maneira apropriada de US$ 8,7 bilhões de dinheiro da venda de petróleo e gás iraquianos, depois da invasão de 2003.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A ORGIA SE TRANSFORMA EM NATAL... O TRAVESTIMENTO DE UM VELHO RITO ROMANO DE HOMENAGEM AO DEUS CHAMADO SATURNO



SATURNALIA – TEMPO DE PRESENTES




Texto de Leni Ribeiro Leite (paginas 103-108) em:
ANAIS DA XXV SEMANA DE ESTUDOS CLÁSSICOS
Intertextualidade e Pensamento Clássico
13 a 16 de setembro de 2005
DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS
FACULDADE DE LETRAS / UFRJ
Disponivel em http://www.letras.ufrj.br/pgclassicas/SEC-Textos-2005.pdf



    No começo de dezembro, escreve Columella, o fazendeiro deveria ter terminado sua plantação de outono. Então, no momento do solstício de inverno – 25 de dezembro no calendário Juliano – Saturno, o deus do plantio e da colheita, era homenageado com um festival. As Saturnalia eram oficialmente celebradas no dia 17 de dezembro (a.d. XVI Kal. Ian.) e, na época de Cícero, duravam sete dias, de 17 a 23 de dezembro. Augusto tentou limitar o feriado para três dias, de forma que as atividades civis não tivessem que se interromper por mais tempo do que o necessário, e Calígula estendeu-o para cinco dias. Ainda assim, parece que as celebrações continuavam acontecendo durante uma semana inteira, de acordo com Macróbio, com a troca das sigillaria, pequenas figuras de terracota ou prata dadas como presente.
     Macróbio, em seu livro denominado exatamente Saturnalia, cria uma simpósio imaginário entre intelectuais pagãos, que ocorre durante o período das Saturnalia. Em certo ponto, ele oferece uma explicação para a duração variada do feriado. Segundo consta, o feriado era originalmente celebrado em um só dia, 19 de dezembro (a.d. XIV Kal. Ian.). Com a reforma do calendário Juliano, entretanto, dois dias foram adicionados a dezembro, e as Saturnalia passaram ao dia dezesseis antes das Kalendas de janeiro, ou seja, dezessete de dezembro 
“resultando que, já que o dia exato não era conhecido de forma comum – alguns observando a adição que César fizera ao calendário e outros seguinte o antigo costume – o festival passou a ser considerado como durando mais do que um só dia.”
     O dia original havia sido escolhido em função da Opalia, em honra à deusa Ops, que personificava a abundância e os frutos da terra, e era a consorte de Saturno. Como as duas divindades representavam o produto dos campos e pomares, eles também representavam o céu e a terra. Era por esta razão, segundo Macróbio, que os festivais eram celebrados ao mesmo tempo, com os cultores de Ops sempre sentados em oração, de forma a tocar a terra, mãe de todos. 
    No calendário romano, as Saturnalia eram consideradas dias sagrados, ou feriados, em que ritos religiosos aconteciam. Saturno recebia sacrifícios; no Templo de Saturno, um dos mais antigos segundo os registros dos pontífices, construído para as Saturnalia, os pés da imagem do deus eram livrados dos fios de lã que o cingiam, para simbolizar a libertação do deus.
    Mas as Saturnalia eram também dias de festas. Após o sacrifício no templo, havia um banquete público, costume que, segundo Tito Lívio, havia sido iniciado em 217 a.C. Pode ter havido também um lectisternium, ou seja, um banquete para o deus em que sua imagem era colocada junto à mesa, como um conviva. De acordo com Macróbio, a saudação durante o período era “Io, Saturnalia”, que os participantes do banquete gritavam durante a festa no templo.
     As Saturnalia eram sem dúvida a festividade mais popular do calendário romano. Catulo as descreve como “o melhor dos dias”, no poema 14:

Nei te plus oculis meis amorem,
Iocundissime Calue, munere isto
Odissem te odio uatiniano;
Nam quid feci ego quidue sum locutus,
Cure me tot male perdere poetis?
Isti dei mala multa dent clienti,
Qui tantum tibi misit impiorum.
Quod si, ut suspicor, hoc nouum ac repertum
Munus dat tibi Sulla literator,
Non est mi male, sed bene ac beate,
Quod non dispereunt tui labores.
Dei magni, horribile est sacrum libellum!
Quem tu scilicet ad tuum Catullum
Misti, continuo ut die periret
Saturnalibus, optimum dierum!



Se não te amasse mais do que a meus próprios olhos,
Felicíssimo Calvo, por tal presente
Eu te odiaria com o ódio de Vatínio;
Pois o que eu fiz, o que eu falei,
Para que me perdesses com tão maus poetas?
Que os deuses mandem muitos males ao teu cliente
Que enviou a ti tantas coisas ímpias.
Se, conforme suspeito, este presente novo e inacreditável
Te dá Sila, o gramático, não me parece mal,
Mas sim bom e belo por não desperdiçares teus esforços.
Grandes deuses, que livro horrível e infame!
Este que sem dúvida tu deste a teu Catulo para que ele morra
subitamente
Neste dia de dons, das Saturnais, melhor dos dias!

     Neste poema de Catulo, encontramos o costume mais bem documentado dos dias das Saturnais: o de trocar presentes. As Saturnais eram uma ocasião para celebrações em que os amigos deveriam ser visitados e presenteados, inicialmente com as já mencionadas sigillaria e pequenas velas de cera (cerei), talvez para representar a volta do sol com sua luz. Também atesta o costume Petrônio, no Satyricon 56.7-10. No entanto, ao que tudo indica, logo os tipos de presentes foram significativamente ampliados, conforme documenta Marcial. Este autor nos legou dois livros inteiros de epigramas, intitulados Xenia e Apophoreta, exclusivamente compostos de dísticos que são dedicatórias criadas para acompanhar vários tipos de presentes. Cada pequeno poema tem um título, que nada mais é do que o presente que o epigrama deveria acompanhar. Considera-se que os livros teriam sido publicados em dezembro do ano 85 d.C. O primeiro contém poemas para acompanhar presentes de comida e bebida; o segundo, presentes de variados tipos, a serem dados aos visitantes. Estes livros são tradicionalmente numerados XIII e XIV, respectivamente, nas edições das obras completas do autor. 



[...]

     No entanto, nem todos parecem ter apreciado a festa, nem a apreciado da mesma forma. Sêneca, nas Epistulae Morales ad Lucilium, reclama que “toda a plebe se deixa levar pelos prazeres”. Plínio-o-Jovem diz que se retirava para seu quarto enquanto o resto da casa celebrava. Cícero ia para o campo. Aulo Gélio, nas Noctes Atticae XVIII. 2 conta que ele e seus compatriotas romanos se reuniam nos banhos em Atenas, onde estudavam, e faziam um jogo de perguntas e respostas e, caso ninguém soubesse responder à pergunta feita, deveriam dedicar uma coroa de louros a Saturno.
     Uma característica da celebração que ganhou em importância com o passar do tempo era que, durante o feriado, muitas restrições eram deixadas de lado, e a ordem social era invertida. Jogos de azar eram permitidos em público. Os escravos não precisavam trabalhar e podiam jogar com os dados; ao invés da toga, roupas menos formais eram permitidas (synthesis). Dentro da família, um “chefe do desregramento” era escolhido. Os escravos eram tratados como iguais, inclusive usando roupas de seus senhores e sendo servidos nas refeições. Essa igualdade era temporária, é claro, e Petrônio fala de um escravo imprudente que agiu em outra época do ano “como se fosse dezembro”.
     No fim do primeiro século d.C., Estácio ainda podia proclamar:

“Por quantos anos este festival vai permanecer! Nunca a terra
deverá destruir dia tão sagrado! Enquanto as colinas do Lácio
permanecerem de pé, e o pai Tibre, enquanto romano e o
Capitólio estiverem firmes sobre o mundo, ele deve continuar.”
     
     E a Saturnália de fato continuou sendo celebrada, como Brumália (de bruma, solstício de inverno) até a era cristã, quando, em meados do século IV d.C., seus rituais acabaram absorvidos pela celebração do Natal. Há quem diga que os cristãos do século IV apontaram o dia 25 de dezembro como o do nascimento de Cristo porque os pagãos já tinham esse dia como sagrado. Essa escolha evitaria o problema de eliminar um feriado muito popular e auxiliaria no processo de cristianização da população.
     No entanto, houve problemas, registrados em sermões e outros documentos eclesiásticos, em função das diferenças entre as celebrações, uma vez que já no primeiro século d.C. são registradas profundas alterações nos costumes das Saturnalia. O feriado em honra a Saturno parece ter-se degenerado para os excessos, marcados pela alteração de papéis sociais, e a liberdade de ação então proclamada teria sido a razão pela qual, já na era cristã, o termo saturnalia, em minúscula, seria sinônimo de ORGIA. Sêneca, dirigindo-se novamente a Lucílio, escreveu a respeito das Saturnalia romanas nos seguintes termos:

“É agora o mês de dezembro, em que a maior parte da cidade está
em festa. Rédeas soltas são dadas para a dispersão pública, em
qualquer lugar que se vá são ouvidos os sons de grandes
preparações, como se houvesse realmente uma grande diferença
entre os dias devotados a Saturno e os dias comerciais. Se você
estivesse aqui, eu gostaria de debater com você se deveríamos ter
uma noite como as outras ou se, para evitar a diferença,
deveríamos ambos ter um jantar melhor e deixar de lado a toga.”

A moral estóica, e depois a cristã, condenaram as Saturnalia, especialmente em sua faceta de inversão dos valores e costumes, tal como aconteceu com outras festas pagãs, vide o Carnaval, ainda hoje evitado pelos segmentos mais religiosos. No entanto, o costume da troca de presentes moderna pode ser traçado até as pequenas sigillaria, e não faltam a nós os banquetes com os amigos e família, regados a vinho e alimentos festivos, como agradecimento pela fartura, e como promessa de um novo ano de colheitas abundantes.


Referências bibliográficas:


BORNECQUE, H. & MORNET, D. Roma e os romanos. SP: EPU-EDUSP, 1976.
CATULO. O livro de Catulo. Trad. João Ângelo Oliva Neto. SP: EDUSP, 1996.
GRIMAL, Pierre. Dicionário de mitologia grega e romana. 4. ed. RJ: Bertrand Brasil, 2000.
MARTIAL. Epigrams. Cambrige, Massachussets: Harvard, 1993.
SULLIVAN, J. P. Martial – The Unexpected Classic. Cambridge: Cambridge University, 1991.